Num mundo onde qualquer alimento, e até água tem rótulos “gourmet”, nada como comer algo sem a pretensão de
tornar-se a “salada gourmetizada”, sem personalidade e mais uma figurinha fácil
do maravilhoso mundo gourmet.
Não, não é uma revolta com aquilo que carrega o conceito
gourmet (mesmo que deturpado) e sim uma valorização do que nos preenche sem
cansar: a refeição despretensiosa.
Na contramão de conceitos gourmet, resolvi escrever sobre
aquilo que surpreende meu estômago e me enche de contentamento: a comida
confortável. Aquela refeição que se torna um evento gostoso e sem a pressão de
ter que ser perfeito ou inusitado para nos surpreender e alcançar enfim o
patamar gourmetizado da vida.
Tudo que é demais cansa...e isso funciona para as comidas
também. Sal do Himalaya, aceto balsâmico reduzido com as berryes do local X Y
Z...tudo isso é delicioso, porém com grande potencial de tornar-se terrivelmente
cansativo. Visto que nosso cotidiano está repleto de “origem gourmet”.
Existem clássicos que não devem e nunca deverão estar num
degrau gourmet da fama: arroz com feijão, almondegas boiando no molho da vovó,
bolo de cenoura, escarola refogada com batatas e o maravilhoso, o espetacular
strogonoff!
Estas comidas pertencem ao imaginário coletivo da “comida de
casa”. Aquela que sua avó, sua mãe, sua tia; todas elas preparavam no dia a
dia, no domingão em casa para servir 2, 3, 10 pessoas!
Toda vez que eu como strogonoff penso nisso. Ô produção
carregada de aconchego! Tem cara de domingo na casa da minha avó, tem cara de
bate papo com a amiga que ama o prato, tem cara de comida para dois sem ter que
fazer um mundo de sujeira na cozinha, tem cara de comida rápida e caseira (fora
da caixa fast)...tem cara de casa!
Tão pop que é, até já escrevi sobre ele em outros carnavais.
Lembro-me que ilustrei bem suas diferenças: temos o clássico de carne, tem o
popular e delicioso de frango, tem o de camarão e até vegetariano.
Se você quer variar ao invés do arroz branco, sirva dentro
do pãozinho italiano como fiz várias vezes já; ou só coma com grandes pedaços
de batata. É bom demais! Particularmente falando, melhor ainda com muito molho!
Aquela mistura impecável de creme de leite e tomate. Não tem como ser ruim uma
coisa desta.
A receita original leva molho de tomate delicadamente
misturado em creme de leite. Sim, deve dar uma leve talhada, quase
imperceptível...e eu não sou louca. Esta “leve talhada” acontece em segundos
bem administrados na panela e que conferem ao molho o ponto certo: nem talhado
do tipo que não dá para comer e nem aguado demais (resultado da utilização
correta/catedrática do creme de leite fresco). Uma boa dica é gelar o creme de
leite muito bem, cerca de 20 min. no freezer e acrescentá-lo no final do
preparo fora da chama do fogo e com o molho bem quente. Esta manobra técnica,
confere uma cremosidade característica.
Para mim não importa se tem champignon em quantidade, se o
molho é isso ou aquilo, se é o corte perfeito do mignon. Para mim o strogonoff
perfeito é aquele que agarra na carne e não pinga do garfo.
Muitos não sabem que este prato tem origem russa. Podemos classificá-lo
como russo pela característica de mistura molho de tomate + creme de leite= uma
infinidade de pratos de origem Russa.
"Mas qual é mesmo a origem do strogonoff e qual a sua receita verdadeira (ou original)?
No livro francês L’Encyclopedie de la Cuisine (A Enciclopédia da Cozinha), ao apresentar a receita de Boeuf Strogonoff (ver receita), seus autores dizem que o “Strogonoff ou Stroganov é um clássico da cozinha russa, adaptado pela cozinha francesa”, e que a origem do nome tem duas explicações: (1) o prato leva o nome de uma rica família de comerciantes russos, os Stroganov, que tinham um cozinheiro francês, responsável pela criação do prato; (2) o nome vem simplesmente do verbo russo “strogat”, que significa cortar em pedaços (no caso, a carne).
Já a revista brasileira Gula, em reportagem sobre o “verdadeiro strogonoff” diz que o nome homenageia uma antiga família da cidade de Novgorod, perto de São Petersburgo, e que uma descendente desta família, Sophie Stroganoff (com a) morou em São Paulo. Segundo a revista, os Stroganoff, rica família de negociantes, participavam de um clube em que os chefs das cozinhas das famílias apresentavam suas criações culinárias. Numa dessas reuniões foi apresentado o Boeuf Stroganoff, receita simples à base de carne e creme de leite fresco. A receita apresentada pela revista foi elaborada pela cozinheira Lúcia Costa Passos, que aprendeu a prepará-la com Sophie Stroganoff.
E a história não pára por aí. De acordo com Eda Romio, em seu livro 500 anos de Sabor, “os soldados russos, no século XVI, levavam como ração para os campos de batalha barris com carne cortada em pedaços, coberta com sal grosso e aguardente, para que não apodrecesse. Quando iam comê-la, acrescentavam um pouco de gordura e creme azedo.
No final do século XIX, o chef francês Thierry Costet, trabalhando para nobres em Novogorod, acrescentou à mistura ingredientes europeus, como cogumelos, mostarda e páprica. Com a revolução de 1917, que terminou com a era dos czares no país, muitos russos foram para a Europa, onde o strogonoff ganhou os detalhes finais que resultaram no sabor que conhecemos hoje em dia”.
Fonte:http://blog-gostoso.blogspot.com.br/2006/06/strogonoff-da-rssia-para-o-mundo.html
Se comer é um sentimento, strogonoff para mim é casa, é
conforto, é carinho porque me remete a deliciosos momentos que só agregam na
minha vida. E o mais legal é que cada strogonoff leva o toque de quem faz.
Daria para escrever um livro inteiro sobre.
O melhor é de tudo ainda é concluir que o valor das coisas
realmente estão atreladas “ao evento” que produzem no conjunto de sensações.
Comida tem este poder.
Comida que agrega e acaricia, e isso está longe do conceito
gourmet imposto ao cotidiano, uma moda boba.
Eu arrisco dizer que, a comida confortável, é mais valiosa do que a identidade
atribuída ao gourmet. O gourmet contemporâneo, não é personalizado como o
evento criado com um despretensioso strogonoff, que sim é um veículo de
aconchego, de sorrisos contentes; daquela dedicação em fazer o molho perfeito
só pra te deixar mais feliz! E isso sim é um sentimento maravilhoso. Arrisque
sair do gourmet do dia a dia e volte para a sala, com filme na TV e boa cia em
torno do prato de strogonoff.
Sua receita clássica:

- 4 colheres (sopa) de manteiga
- 1 quilo de carne em tiras finas (filé mignon, contra-filé ou, alcatra)
- 2 cebolas picadas
- meia colher (sopa) de sal
- 1 pitada de pimenta-do-reino
- meia xícara (chá) de conhaque
- 200 g de champignons em conserva fatiados
- 3 tomates , sem pele e sem semente, picados
- 2 colheres (sopa) de catchup
- 1 colher (sopa) de mostarda
- 1 lata de creme de leite
- Como fazer:
- Em uma frigideira grande, derreta três colheres (sopa) da manteiga, e doure a carne, aos poucos, em fogo alto, para não juntar suco. Reserve a carne, coloque na frigideira a manteiga restante e refogue a cebola. Junte a carne, tempere com o sal e a pimenta-do-reino. Despeje o conhaque, deixe aquecer e incline levemente a frigideira para que o conhaque incendeie. Deixe flambar até acabar a chama e junte os champignons. Acrescente os tomates, o catchup e a mostarda e misture bem. Abaixe o fogo, tampe a panela e deixe por cerca de 5 minutos. Incorpore delicadamente o creme de Leite e retire do fogo antes de ferver. Sirva a seguir com arroz branco e batata palha.